Boas ideias e péssimos resultados
Entre as piores coisas do mundo estão as boas intenções, que geram boas ideias, que fazem a canoa fazer água. Dizia meu pai que de boas intenções o inferno está cheio. E é verdade.
Quantas vezes depois de um desastre, você ouviu alguém dizer, “ah, eu achei que se fizesse assim ia acabar tudo bem”. Não acaba, pouca coisa é mais infeliz do que um infeliz se meter onde não é chamado com uma solução infalível para consertar o que ele acha que está errado.
O duro é que depois que o estrago está feito, não tem muita solução e consertar os desmandos invariavelmente leva tempo e não fica bem-feito. Cristal que quebra não dá liga para um remendo decente.
Na vida é a mesma coisa. Depois que quebra, dificilmente dá liga ou tem jeito de ser refeito. Seja negócio, amizade ou amor, espanou, dançou. Não tem força que apague o desencontro, a desavença, ou seja lá o que for que tenha interferido e acabado mal.
É a melhor amiga que conta para a outra que ficou com seu companheiro, mas foi só um pouquinho. Ou o sócio que usa o nome da firma para fazer negócio só para ele. Ou o amigo que usa a posição do amigo para levar uma vantagem indevida que o amigo jamais aprovaria.
Viver é muito complicado. Pouca coisa é mais triste do que o camarada que passa o dia fazendo o mal para os mais fracos e bajulando os mais fortes, e no fim do dia vai a igreja e faz questão de mostrar que está rezando, depois de ter se confessado.
A hipocrisia não tem limites. Vale tudo, especialmente puxar o saco para levar vantagem. Invariavelmente, é aí que surge a boa ideia, o conselho que quebra o outro, mas que foi dado com a melhor das intenções.
Não se esqueça nunca disso, desconfie de quem chega com voz melíflua. O inferno está cheio de boas ideias e de boas intenções.
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