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O véu rasgado

A cimitarra da lua rasgou o véu da noite e abriu a caixa dos segredos felizes, guardada no mais escuro do céu. Antes que um anjo pudesse fechá-la, alguns segredos fugiram, se aventurando em viagens tão fantásticas e tão várias como a rota para Aldebarã, ou para a intrometida do cruzeiro, ou para a Canícula.

Andrômeda brilhou mais forte e a nebulosa de Magalhães assistiu perplexa ao surgimento de trezentas supernovas. Os segredos cortaram o céu na velocidade da luz, cometas das boas novas trazendo para a terra os segredos da minha felicidade, sussurrados pela brisa noturna quebrando o calor do verão.

Teu nome se confundiu com as estrelas, murmurado pelas folhas mansas balançando na palmeira onde, de madrugada, um sabiá costuma cantar.

Teu nome se entranhou no cheiro da terra molhada, revigorada pela tempestade forte e rápida.

Teu nome na brisa trouxe teu retrato estampado no céu, por traz de duas nuvens com quem a lua luta, como Saladino cortando cabeças de cruzados, nas portas de Jerusalém.

Nada resiste aos avanços do satélite. Com a persistência do Salmão que retorna ao lago onde nasceu, a lua brande sua cimitarra, cortando as nuvens, abafando as estrelas mais atrevidas, disposta a trazer para a terra os segredos que ela soltou.

Mesmo os anjos são impotentes para detê-la. E os segredos aproveitam a fúria da dona da noite para descerem, um a um, pausados, calmos, como a felicidade que eles anunciam.

A felicidade que está nos teus olhos. A felicidade que brota de teus olhos e divide com a lua os segredos da noite.

Cada gesto teu tem algo de divino, como se a magia da lua se incorporasse em teu ser e te enchesse com os segredos mais secretos que falam das coisas boas e nos ensinam a tê-las.

E eu te olho, guerreira em repouso, saciada não de nuvens, nem de sangue, mas de seiva e de amor.

E eu te amo.

Te amo com a calma profunda do marinheiro que sabe que retornou ao porto.
No céu a lua se esconde, satisfeita, pronta para dormir em sua cama de aurora.

Na Terra, eu te abraço e te acalento, e sinto o teu respirar calmo me falar de aventuras incríveis e com final feliz, adormecidas em teu corpo em repouso.

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Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). Provedor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (2017/2020), atual Irmão Mesário da Irmandade, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.