É tempo de pitanga
As jabuticabas foram embora, devoradas pelos pássaros, pelas abelhas e pelas pessoas de sorte, que puderam comer as frutinhas pretas direto no pé.
Pouca coisa é mais gostosa que jabuticaba no pé. Tem gosto de interior de meio século atrás, quando a música ainda era caipira e o sertanejo alguma coisa inimaginável – menos ainda o sertanejo universitário. Naquela época boa parte dos moradores do sertão não sabia escrever, ou escrevia muito mal. A universidade não era nem um sonho, era alguma coisa que eles sabiam que existia, mas não tinham ideia de como era.
Mas se as jabuticabas entraram no mundo político, pela característica de serem exclusivas do Brasil, tem mais um monte de fruta gostosa, com gosto de Brasil, e entre elas as pitangas se destacam, merecem a honra de serem crônica, até porque agora é a vez delas e comer pitanga no pé é tão bom como comer jabuticaba no pé.
As pitangas são vermelhas, aliás, como o nome diz, pitanga na língua geral quer dizer vermelho. Mas a cor não tem conotação política, nem significa que elas são a favor ou contra seja lá o que for.
As pitangas são inteligentes demais para perderem tempo com a polarização da vida nacional. Elas têm mais o que fazer do que ficarem discutindo quem está certo e quem está errado – se fulano é fascista ou comunista. Elas sabem que qualquer extremo é ruim. E que não levam a nada, a não ser custar mais caro e que quem paga a conta somos nós.
As pitangas não são contraponto para as jabuticabas, ao contrário, elas seguem a mesma linha, e entram em cena na sequência, reforçando o comprometimento das frutas pequenas com o progresso do planeta e a tentativa de fazer da terra um lugar mais inteligente. Elas sabem que o problema não são elas, são os humanos e aí é difícil se fazer entender.
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