Os mosaicos da Vila Madalena
[Crônica de 27 de setembro de 1999]
A Vila Madalena é um lugar especial. Até aí nada de novo, porque todos os lugares são especiais para alguém. Só que a Vila Madalena é mais especial. Lá a vida tem um ritmo próprio, diferente e que vem se acelerando ao longo dos últimos anos.
Quando eu conheci a Vila, passando por ela para chegar no Alto de Pinheiros, coisa de 20 anos atrás, era um bairro calmo, com ruas sem trânsito, casas simpáticas e gente sem pressa, que vivia com seus passarinhos e seus bichos, ao lado de fábricas, lojas pequenas e um grande número de oficinas mecânicas, instaladas lá quem sabe por causa de suas ladeiras íngremes, boas para testar a regulagem dos carros.
Quem vê a Vila Madalena hoje não consegue imaginá-la como era nesse tempo. Tempo em que o nome de suas ruas fazia sentido, e harmonia queria dizer harmonia, e simpatia queria dizer simpatia e assim por diante.
Época que seus bandeirantes caminhavam devagar e andar por eles e cruzá-los, fosse Mourato Coelho, ou Fradique Coutinho, não necessitava de atenção redobrada, nem de rotatórias, como que para evitar que briguem com os jesuítas de Aspicuelta.
Hoje, a Vila Madalena mudou. Para melhor, para pior? Depende do ponto de vista. Ela é outra e é isso o que importa.
E o fascinante no processo é que a Vila Madalena atualmente muda quase que todos os dias.
Na dinâmica alucinada de sua vida – de dia de um jeito, de noite de outro – a Vila Madalena se transforma numa rapidez quase que impossível de ser acompanhada.
Agora mesmo, a Vila está deslumbrada com os mosaicos que começaram a enfeitar seus muros.
Alegres, eles mostram que mesmo na dureza da vida das crianças carentes que os montaram, a beleza tem um lugar especial.
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