A espatódea heroica
[Crônica de 16 de janeiro de 2008]
No final do ano o flamboyant do começo da Avenida da Raia Olímpica da USP não aguentou mais. Deixou suas últimas flores caírem, tingindo o chão com um vermelho intenso que para um desavisado seria sangue, não fosse o quadro confirmado pelas flores espalhadas em volta.
Nem mesmo a força dada pela jaqueira perto conseguiu prolongar a florada que já se estendia deslumbrante desde o final de novembro ou o começo de dezembro.
O flamboyant foi até onde deu, depois entregou os pontos como acontece na vida de qualquer um de nós quando insistimos em prolongar uma corda que tem tamanho certo. No final ela rompe e o tombo é certo.
Mas se flamboyant entregou os pontos, uma espatódea plantada um pouco à frente, do outro lado da avenida, pegou a bandeira e prosseguiu na corrida.
Desde o final do ano, não é mais o vermelho intenso do flamboyant, mas o laranja intenso das flores de uma espatódea que embeleza a entrada da universidade, dando as boas-vindas para quem circula pelo campus.
É o ciclo da vida se cumprindo. Um depois do outro, todos passam. Se até os deuses morrem, por que não morreriam as flores, por mais belas e densas que sejam?
O destino é inexorável. Cada um tem seu momento e sua hora. O do flamboyant foi no mês de dezembro. Ao longo dele, imperou absoluto entre as árvores da avenida.
Mas agora já é meio de janeiro. Chegou a vez das espatódeas aumentarem o ciúme das quaresmeiras inconformadas porque ainda é cedo para elas trocarem de roupa e entrarem na festa. Isso vai acontecer, mas depois.
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