A rua doente
[Crônica de 22 de julho de 2002]
Pode parecer incrível, mas as ruas também ficam doentes. A prova disto é a Ministro Rocha Azevedo, uma rua corajosa e ousada, que não teme subir uma das encostas mais íngremes da cidade, reta e imponente, ladeira acima, como se a única razão de ser das ruas fosse subir ladeiras íngremes, desafiando a gravidade que puxa quem sobe pra baixo.
A Ministro Rocha Azevedo é consciente em sua postura e faz bem em ser assim e homenagear quem lhe emprestou o nome. Não são todas a ruas que carregam o homenageado com orgulho. Boa parte delas, quem sabe por ter um homenageado chinfrim, parece que tem vergonha da homenagem, e atravessa a vida, ou uma parte da cidade, de cabeça baixa, e por isso fica uma rua sem caráter, sem dignidade e onde é indiferente ir ou não ir.
A Ministro Rocha Azevedo não. Ela faz a sua parte e faz bem-feito. Só que está doente. Faz tempo que a saúde dela vem piorando e o grande sintoma era as ondulações, que foram se transformando em buraquinhos, que depois cresceram, dando a impressão de que a rua foi, em algum momento que ninguém percebeu, atacada por um sarampo muito forte.
A teoria do sarampo me encheu de pena por uma rua que durante anos serviu de prova de fogo para meus carros, condenados a ter que subi-la esticando as marchas até onde dava, pra ver de que jeito chegavam lá em cima.
Só que o sarampo se agravou e, agora, eu não tenho mais dúvidas. A Ministro Rocha Azevedo, foi atacada pelo mal bíblico que impede as pessoas de entrarem nos templos e eu não vejo qualquer providência para salvá-la.
Pelo contrário, a cada dia que passa as crateras aumentam de extensão e profundidade, sob o olhar indiferente das autoridades.