A devolução da carta
[Crônica de 4 de maio de 2001]
– Boa tarde, eu queria devolver minha carteira de habilitação.
– Desculpe, como é?
– Eu queria devolver minha carteira de habilitação.
– Mas por que o Senhor deseja fazer isso? O senhor não está satisfeito com ela?
– Não é isso, é que eu recebi esta carta dizendo que minha habilitação está suspensa e que eu deveria vir aqui devolver minha carteira. Então eu estou aqui para devolver minha carteira de habilitação.
– Mas o senhor não pode…
– Não pode como? Claro que eu posso, a carteira é minha e eu não quero mais ela, portanto o senhor queira pegá-la, porque eu estou devolvendo, exatamente nos termos da carta que os senhores me mandaram.
– Mas o senhor não pode devolver assim sem mais nem menos…
– Mas não é sem mais nem menos, foi uma decisão pensada e amadurecida. Eu não quero mais minha carteira de habilitação, assim, como estou com mais pontos do que devia e os senhores me disseram para devolvê-la, estou devolvendo de uma vez por todas, porque não quero mais dirigir.
– Mas o senhor não pode fazer isso. O senhor tem que escrever sua defesa…
– Mas eu não quero me defender de nada. Eu assumo cada um dos pontos que os senhores me deram. O que eu não quero é continuar com minha carteira de habilitação.
– Sinto muito, mas não dá. Sem o senhor entregar sua defesa não tem como receber sua carteira, mesmo estando suspensa. Aliás, como o senhor não entregou sua defesa, o senhor pode continuar dirigindo, porque o senhor ainda não está suspenso.
Nessa hora, meu amigo desistiu. Colocou a carta no bolso e foi-se embora.