300 anos de indulgência
Chova ou faça sol, no mês de janeiro os fins de semana podem se tornar a antessala do inferno, se você precisar pegar qualquer rodovia paulista.
Tanto faz a direção, interior, litoral, neutra, ou qualquer outra, o nó estará armado, te esperando para fazer a festa, com o que vai acontecer com você.
Nem a tortura mais cruel, desenvolvida pela Gestapo ou pelo serviço secreto soviético; nem as torturas chinesas, famosas pela capacidade de infligir sofrimento; ou as invenções da Inquisição para purificar as almas; ou as técnicas da CIA, empregadas em Guantânamo, chegam perto do que você sofre parado numa estrada paulista, congestionada, num fim de semana de janeiro.
É uma tortura pensada para causar o máximo de dano ao longo de algumas horas de sofrimento inenarrável, nas quais você fica torcendo para acabar, mas não acaba, até que exausto, você descobre que tem mais, que chegou a hora de um arrastão varrer a estrada parada e você ter certeza de que o inferno pode ser mais embaixo.
Não tem o que fazer, a soma de fatores é impiedosa e ataca sem pedir licença para ninguém. Motoristas sem prática de estrada, carros sem manutenção, caminhões desembestados, concessionárias preguiçosas ou incompetentes e falta de policiamento tornam a possibilidade do inferno em absoluta certeza.
Resta entregar a alma a Deus e tentar fazer meditação. O corpo já foi, o negócio é tentar salvar a alma.
Tenho um amigo que quer abrir uma nova igreja para vender títulos de até 400 anos de indulgência plena, garantindo sua entrada no paraíso. Segundo ele, é só questão de preço.
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