Quarta-feira de cinzas
Cadê todo mundo que estava aqui? Cadê a festa que se estendeu para depois do bloco de carnaval, que desceu a Consolação prometendo o impossível num copo de cerveja, que virou várias garrafas?
Cadê os amigos que eu nunca tinha visto antes? As amigas de barriga de fora? Cadê a noite, cadê a noite? Apaguem esse sol que está me cegando. Quero os mistérios da noite, os encontros e desencontros da noite, todas as possibilidades da noite.
O que aconteceu, como eu vim parar aqui, sozinho, nesse banco de praça que eu nunca vi antes? A cidade em volta não é a cidade que eu conheço, que eu atravesso quase todos os dias, em engarrafamentos desalmados que nos condenam a ficar uma hora parados, sem ter o que fazer, exceto ter a emoção de ser assaltado, em mais um arrastão.
Cadê o bar cheio de gente? Cadê a gente? O monte de gente que eu nunca vi antes, mas que eu tenho certeza, são meus amigos da vida inteira?
Comecei cedo, entrei num bloco aqui, mudei para outro ali. Varei Pinheiros, depois desci a Consolação, até encontrar ela vestida de Eva, atrás de uma maçã e de duas flores vermelhas.
Ah, o mistério! a eterna busca pelo mistério que não tem intepretação, mas que se junta para viver o momento. Ah, todos os ah! de espanto e descobrimento. Mãos que se entrelaçam, corpos que se abraçam, riso e felicidade no encontro sem compromisso, a não ser, ser o único compromisso.
Cadê todo mundo, meu Deus. Onde eu estou? que horas são? Quem sabe o caminho da minha casa? A salvação é um uber. É isso, chamo um uber e a vida volta ao normal. Epa, cadê meu celular? Meu Deus do céu, cadê meu celular, minha carteira, todas as provas que eu existo?
Deus tenha piedade da alma, porque o corpo já foi.
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