Pavio curto
A tensão ou as tensões criadas pela vida numa cidade como São Paulo estão levando a população a um grau de irritação inacreditável. Isso seria suficiente para alguém gritar – “parem as máquinas, é hora de descer e esfriar a cabeça”.
Mas este alguém não existe, então a temperatura segue subindo, com tudo de grave e ruim que ela gera. Paciência é o nome do jogo, mas ninguém tem paciência para jogar paciência, ao contrário, o jogo em vez de acalmar, eleva mais ainda o grau de tensão do jogador, que quando vê que não vai fechar, joga todas as cartas para o alto.
Ah! Como é bom um jogador que só joga a as cartas para o alto! Muito mais sério é o alucinado que porque seu time perdeu, atira seu carro em cima de um ponto de ônibus cheio de gente.
Como, não acontece? Acontece, sim. E é tão banal que não dá nem notícia no jornal da madrugada. Muito mais emocionante é o maluco que sai com uma faca na mão correndo atrás de duas crianças brincando na rua.
Ou o alucinado que joga seu carro em cima dos outros para poder virar à esquerda, apesar de estar na quarta pista a direita. “Aqui quem manda sou eu. Não pode, mas eu faço e quero ver quem é que vai dizer que não”.
Quando ele acha que ganhou no grito, um maluco, mais maluco ainda, para o carro, desce com uma pistola automática na mão e ameaça atirar, só que na pessoa errada, alguém que não tem nada com isso.
A polícia tenta chegar, mas os curiosos impedem sua passagem. Assistir de camarote, briga, atropelamento, sequestro ou assalto é muito mais divertido que ir ao cinema e é de graça. A polícia que espere.
E a cidade segue seu ritmo, quase parando, no trânsito infernal que aumenta a tensão e confirma que viver é muito perigoso.
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Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.