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Orelhões

Eles já foram a possibilidade de comunicação de um enorme Brasil que mal e mal falava pelo telefone, não porque as ligações fossem ruins, mas porque faltavam telefones, ou melhor, linhas de telefone.

Os orelhões eram a salvação da lavoura. Espalhados por todo o país, sua forma estranha chamava a atenção, especialmente quando tinham dois ou três aparelhos no mesmo poste.

Um amigo meu furtou dois orelhões, ou melhor a cobertura do orelhão para adaptar como bancos para um bug velho que ele estava restaurando. O mais fantástico é que deu certo e o bug dele tinha bancos especiais, que chamavam a atenção de quem o via passar na rua, feito com dois orelhões que se destacavam pela altura em relação ao carro.

Mas com forma estranha ou não e com a cobertura servindo para banco de bug, os orelhões cumpriam seu papel. Através deles era possível ligar dos lugares mais inusitados e falar com quem você queria, como acontece com os telefones públicos de todos os lugares civilizados.

O que mudava é que no resto do mundo os telefones públicos ficavam dentro de cabines fechadas, enquanto aqui, os orelhões tinham sua proteção especial, que realmente pareciam uma orelha, daí o nome.

Além disso, enquanto a maioria dos telefones públicos funcionava com moedas comuns, os orelhões tinham fichas especiais, com ranhuras que encaixavam no aparelho.

Diz a lenda que o Brasil chegou a ter perto de um milhão de orelhões. É número para ninguém colocar defeito. Mas com a chegada dos celulares, começou o fim dos orelhões. Hoje são poucas dezenas de milhares.

E a certeza é que o fim está relativamente próximo, de acordo com as regras, em 2029 os últimos orelhões serão desativados. Muita gente nunca falou num orelhão, mas para os mais velhos, eles deixarão saudades.

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Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). Provedor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (2017/2020), atual Irmão Mesário da Irmandade, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.