Os riquixás da miséria
[Crônica de 30 de abril de 2009]
A nova novela das 9 tem mostrado cenas da Índia, entre elas riquixás correndo pelas ruas, carregando gente na carrocinha. A diferença entre a Índia e São Paulo é que aqui os riquixás carregam lixo, restos encontrados nas lixeiras da cidade ou nas caçambas de reformas, separados por gente que vende estas sobras como único meio de ganhar o pão nosso de cada dia.
Digam o que disserem, é uma vergonha. Não tem cabimento seres humanos viverem assim, catando lixo como forma de arrumar o dinheiro necessário para sair da miséria mais negra, e entrar simplesmente na miséria. A questão que se coloca é se existe graduação na miséria. Se é possível dizer que um miserável é mais miserável que o outro.
O que separa a pobreza da miséria é que na pobreza há dignidade. A vida não tira da pessoa o direito de ser cidadão. Nem o rebaixa para patamares inacreditáveis de dor, vergonha e sofrimento.
Na miséria não há nada exceto a própria miséria. Densa, terrível, sufocante e sem saída. Ao miserável falta pouco, muito pouco para deixar de ser um ser humano.
Cada vez que um riquixá brasileiro cruza meu caminho, ele tem toda a preferência. Por mais que atrapalhe o tráfego, por mais que atrase a rua, ele tem todo o direito de fazê-lo, pela simples razão de que se trata de um ser humano, trabalhando da forma que Deus lhe permite.
Cabe a nós termos noção do absurdo que é um ser humano catando lixo, recolhendo latas vazias, para trocar o alumínio em pontos de venda estrategicamente colocados. Cabe a nós, que nascemos com mais sorte, mudar o destino dessas pessoas.
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