A cidade e a chuva
[Crônica de 10 de março de 2009]
As chuvas de verão castigam São Paulo como se São Pedro tivesse ciúme do antigo companheiro e mandasse as águas que ele controla se vingarem de o nome da cidade ser em homenagem ao apóstolo dos gentios e não no nome dele.
Ano depois de ano as chuvas caem com a força da natureza enraivecida. Pode ser que seja por aí e que o apóstolo tenha pouco a ver com coisa.
Que seja apenas um acerto de contas da natureza com o homem, que ousou tomar seus espaços, assoreando rios, ocupando várzeas e derrubando montes, numa prova de força inadmissível para a mãe de todos nós.
Pode ser, mas ninguém sabe se é. As chuvas caem sem avisar quando, nem dar o porquê. É assim e acabou já faz mais de 500 anos.
A diferença é que antes nós não estávamos aqui, então a chuva cair ou não, tinha pouca importância, porque os índios, ao ver chegar a estação das águas, mudavam de taba, abandonando a área como se não fosse com eles.
O problema é que um belo dia, alguém esperto decidiu que valia a pena vender as várzeas. No começo a ideia era ficar rico em cima dos imigrantes, que não sabiam que todos os anos as várzeas inundavam. Mas São Paulo é complicada. Mal gostou da chance de maltratar os pobres, em seguida viu como atazanar os ricos.
Nada mais fácil que colocar parte dos bairros nobres nas áreas de várzeas. E foi o que foi feito. Em nome da ganância e do lucro fácil, parte dos bairros nobres está nas várzeas. Um dia fica tudo debaixo d’água. Até lá cumpre viver bem e aproveitar. Depois será mais difícil.
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