Depois da festa
[Crônica de 17 de fevereiro de 2010]
Até ontem era festa. Ou melhor, até agora, era festa. Agora, a festa acabou. Sobra este gosto de corrimão de metrô no amargo da boca e uma sensação de coisa perdida zanza pelo corpo, porque a mente é algo vago, que se sabe que existe, mas não se consegue localizar.
Até ontem não havia pecado. Não havia certo ou errado e o bom era correr de festa em festa, de baile em baile, procurando a felicidade perdida no fundo de uma garrafa, ou atrás dos olhos da Colombina quase nua, correndo atrás do Pierrot.
Cada momento era o último. Cada instante a oportunidade perdida recuperada. Cada beijo a reconquista do paraíso, na possibilidade de todas as possibilidades, feitas de sonho e serpentina.
Agora, não. Agora, não mais. Este sol duro que fere os olhos traz para o mundo a falta de lógica de todos os outros dias do ano. Trabalho. Trabalho. O pão nosso de cada dia. Terno, gravata e camisa de manga comprida. Que fantasia mais sem nexo!
Ah, a liberdade de uma bermuda e um tênis velho, uma camiseta e uma lata de cerveja gelada!
Cadê a cerveja? Cadê a mulata que dançou com você a noite inteira? Cadê a madrugada prometendo mais um beijo no abraço apertado, rolando na grama do parque?
Só este sol doendo nos olhos. E o ponto de ônibus tomado de assalto por uma turba que não tem nada em comum com você.
Sobra a vontade de voltar para casa. De tomar um banho. De apagar o passado. E este gosto terrível de corrimão de metrô lembrando que é Quarta-Feira de Cinzas. Que a festa acabou. E que você ficou de fora.
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