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Sardinha para os pobres

[Crônica de 10 de fevereiro de 1999]

O que dizer de alguém que manda importar sardinhas vivas para povoar com elas as águas costeiras de um país e assim alimentar os pobres e os menos favorecidos?

Pode parecer poesia, estória fora da história, mas é verdade. Um rei mandou importar sardinhas para povoar as costas de um país e assim alimentar os mais necessitados. É história do começo do século passado e, por incrível que pareça, acontecida aqui no Brasil.

D. João VI, rei de Portugal, Algarve e do Brasil, compadecido com as condições de miséria em que viviam os pobres e os escravos, mandou vir de Portugal sardinhas vivas para serem soltas ao longo da costa brasileira e assim, juntas com a farinha de mandioca e as frutas da terra – banana e jaca – servirem de fonte de sustento barata, mas rica, para alimentá-los e dar-lhes condições mínimas de sobrevivência.

É poético e mostra o caráter desse rei, tão injustamente caluniado. D. João VI era um homem cheio de defeitos, mas tinha algumas qualidades que fizeram dele um bom rei.

Filho de D. Maria a Louca, casado com d. Carlota Joaquina, rei de um país menor, invadido por Napoleão e dependendo da boa vontade dos ingleses, D. João, foi antes de tudo um sobrevivente.

Um homem que desde o berço administrou situações adversas e que ganhou delas. Primeiro como príncipe regente, depois como rei e, finalmente, como pai do futuro imperador D. Pedro I.

Mas antes de tudo D. João VI foi um homem preocupado com seus súditos. A tal ponto que ao vê-los, no Brasil, passarem necessidades, não hesitou em mandar vir de Portugal as sardinhas que hoje povoam nossas costas, para servir-lhes de alimento, quando na Europa a fome era usada como instrumento de dominação.

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Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). Provedor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (2017/2020), atual Irmão Mesário da Irmandade, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.