Três cartas de Lamarca
[Crônica de 17 de março de 2010]
A aeronáutica acaba de entregar seus arquivos, ou pelo menos parte deles, dos tempos da ditadura militar. Com certeza não foi um ato fácil. Tanto que levou muitos anos até que se consumasse, depois de negativas veementes quanto a sua existência e uma explicação pouco convincente de sua destruição por um incêndio providencial.
O fato é que uma gama importante de documentos sobre uma época que precisa ser passada a limpo da história brasileira chegou ao conhecimento público, passando a ser material de pesquisa para os estudiosos do assunto.
No meio deste rico acervo estão pelo menos três cartas escritas por Carlos Lamarca para seus companheiros de guerrilha, apreendidas num aparelho estourado pela Força Aérea no Rio de Janeiro.
Com certeza, além delas, o material entregue pela aeronáutica contém outros documentos da maior importância para a compreensão do período, ainda muito próximo para permitir a análise isenta na qual a história se baseia.
O mais curioso é que a maioria dos jovens de hoje não tem a menor ideia de quem foram Carlos Lamarca, ou Marighela. Também não sabem nada sobre a Guerrilha do Araguaia. E, ao que parece, não querem saber.
Nascidos nos estertores da União Soviética e da Cortina de Ferro, ou mesmo depois da queda do muro de Berlin, o mundo para eles tem outra cara, outros valores e outras premissas, completamente diferentes e que fariam as nações comunistas, como Cuba e Coréia do Norte, serem consideradas ditaduras horrorosas, o que de fato são.
O Brasil não tem o direito de esconder o seu passado. Que ele seja aberto, estudado e incorporado a nossa história, mas como aconteceu.
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