As filas nas missas de sétimo dia
[Crônica de 13 de novembro de 2000]
Existem rituais que são parte da vida e que devem ser cumpridos porque sem os ritos o homem, mesmo sendo gregário, não consegue viver em sociedade. Os ritos são as margens do imenso rio da vida. Os parâmetros que precisam ser seguidos porque se forem deixados de lado, a gente perde o rumo e acaba fazendo besteira, com a mesma certeza de que para um engenheiro, 2 mais 2 é igual a 4.
Os ritos servem para dar o tom, ensinar o certo e o errado e, mesmo tendo alguns imensamente chatos, são importantes, porque, depois de uma certa idade, descobrimos que dar satisfação também é importante, que não a dar não quer dizer independência, e que faz parte, se não for por nada, por uma questão de respeito com quem merece ser respeitado.
Entre os ritos da vida brasileira, as missas de sétimo dia sempre desempenharam um papel fundamental. Por exemplo, elas são ótimas para se encontrar gente que a gente fica anos sem ver, para escutar novas piadas e colocar outros assuntos transcendentais em dia.
Com o passar do tempo as missas de sétimo dia vão se tornando mais frequentes. E, pela prática, começamos a descobrir as manhas para frequentá-las. É assim que cada igreja tem suas baldas típicas que só descobrimos indo às missas de sétimo dia.
Em função do rito, começamos a descobrir que têm igrejas mais ou menos simpáticas, com padres mais ou menos chatos, que rezam missas mais ou menos curtas, e que covardemente se valem da ocasião para infernizar a vida de quem tem mais o que fazer, com sermões que não acabam e que não têm nada a ver com a saudade do morto.
Também aprendemos os macetes para ir mais rápido nos cumprimentos. É por isso que na igreja de São José todo mundo fica à esquerda e na Nossa Senhora do Brasil todo mundo vai para a direita, inclusive com empurra-empurra. É nesses lados que ficam as portas que nos levam até a família do morto, para dar o abraço de pêsames.
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