São Paulo de todas as flores
[Crônica de 26 de março de 2009]
São Paulo está linda. A mistura de cores tomou a cidade e a fez mais bela e mais humana. Mais quente, quase amiga, em sua roupa de verão.
Não sei os por quês, mas este ano a cidade recebeu de presente do mundo vegetal uma sequência de floradas raras em sua história.
Série improvável, que mudou o jeito da vida, as flores simplesmente não vão embora, não secam, mas ficam penduradas nos galhos, quebrando o cinza triste dos muros, e a falta de alegria nos olhos das pessoas.
Como um arco-íris de conto de fadas, as quaresmeiras repartem seus espaços com espatódeas, flamboyants, primaveras, paineiras e até azaleias. Para não falar em orquídeas, rosas, margaridas e flores do campo.
A ordem natural das flores deixou de existir. Cada uma chega quando quer. Fica enquanto pode e se vai, tarde, mas deixando saudade em que passa por perto e vê diariamente a vida se encher de cor.
São Paulo é famosa por suas floradas. Pela ordem cronológica das flores chegando, cada uma em seu tempo, umas mais apressadas que as outras, mas, de uma forma geral, balizando a passagem do ano e o ritmo das estações.
Em 2009 as coisas mudaram. Ninguém sabe se por conta do aquecimento global, ou qualquer outra razão transcendental, este ano as floradas chegam e ficam. Sem explicação, sem maldade e sem sonho, mas com muita poesia.
Como vai acabar é tão obscuro quanto as previsões sobre a crise brasileira. Pode ser que sim, pode ser que não. Que depois tudo comece de novo, como se não houvesse acontecido nada e fosse normal as flores durarem o ano inteiro. De todo jeito, que sorte a nossa.
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