A alegria não tem idade
[Crônica de 9 de junho de 1998]
Tia Mercedes fez cem anos. Parece coisa de filme de Buñuel, mas não é, tia Mercedes fez, de verdade, cem anos. É idade para pouca gente colocar defeito, ainda mais quando quem a completa chega lá de bem com a vida, lúcido e sabendo o quer.
Que a vida é boa e que o importante é vivê-la intensamente, enquanto Deus deixar. Que no fundo muito pouca coisa é séria e que dar mais valor do que as coisas realmente têm é perder tempo e fazer papel de bobo
É por isso que tia Mercedes chegou aos cem anos como chegou: sem sentir o peso da idade, fazendo o que gosta, quando tem vontade, e deixando o resto para lá.
Tia Mercedes fez cem anos com festa baile, onde ela dançou valsa, radiante com os amigos em volta. Festa onde todos dançaram, alegrando ainda mais a noite da boa senhora, que, comeu, bebeu e conversou como muita gente mais moça não é capaz de fazer. Que se divertiu a noite toda, como muita gente mais moça não sabe que dá para fazer.
Tia Mercedes sabe que o segredo da felicidade é que a felicidade existe e está, na maioria das vezes, dentro de nós. O importante é não a perder de vista, nem deixar que adormeça. O importante é procurá-la a cada dia e fazer do encontro algo tão agradável que a felicidade também queira repeti-lo.
Por conta disto tia Mercedes vigia as noites, sentada na frente da televisão, esperando as lutas de boxe. Ela adora lutas de boxe, como adora dançar valsa. Sentimentos contraditórios, gostos estranhos?
Pode até ser, mas foi respeitando-os que ela, em vez de morrer aos setenta, de infarto ou úlcera, chegou aos cem, dando risada e de bem com a vida.
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