O tempo passa e a gente esquece
Será que Dona Cinira ainda está viva ou já morreu? Dona Cinira era a secretária do diretor do ginásio do Colégio Dante Alighieri, quando há mais de 50 anos eu estudei lá. Dona Cinira era uma mulher curiosa, como secretária tinha que ser dura, como pessoa era amiga e me protegia quando eu era chamado na diretoria, evidentemente por alguma razão não abonadora do comportamento do aluno.
Mesmo mantendo um relacionamento próximo com o colégio, nunca mais escutei falar dela. Sei que o professor Demo morreu, sei que outros professores e professoras morreram, sei do fim da vida de alguns deles, os que eu era mais próximo, ou os que eu gostava menos.
É curioso como nos preocupamos com o que acontece com quem a gente não gosta. Qual o destino deles. Tem um sabor meio mórbido, de vingança, ainda mais quando somos adolescentes e nos sentimos injustamente perseguidos por pessoas que não deveriam nos perseguir. Ao contrário, gente que deveria nos abrir todas as possibilidades, nos ensinar a ver o mundo de várias maneiras, porque o mundo não é um só, nem tem uma fotografia única para definir seus parâmetros.
Dona Cinira tinha os olhos doces. Até quando parecia que ficava brava, não perdia a ternura nem a forma amiga de olhar os alunos na sua frente. Era quase que um colchão de proteção entre os alunos e o diretor, o professor Enéas.
Ser chamado na diretoria era o primeiro degrau de uma escada que podia terminar com uma suspensão. Eu sei por que passei pelo processo inteiro, da ida a diretoria, a advertência e a suspensão.
Foi uma época boa. Eu tenho um carinho muito grande pela minha história no Colégio Dante Alighieri, uma história gostosa, agora completada pela figura de Dona Cinira, que fez parte dela por muitos anos.
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