Acabou o sossego
[Crônica de 5 de março de 1999]
As férias já tinham acabado, mas o Carnaval ainda não tinha passado. Agora sim, agora tudo voltou ao normal, com a cidade de São Paulo readquirindo sua condição de auxiliar direta da cobrança das penas eternas, chamando para si a responsabilidade por uma série de martírios que seriam exclusivos do purgatório, não fosse a capacidade deste estar completamente esgotada em função da superpopulação humana, e do excesso de pecados não tão graves cometidos por milhões e milhões de indivíduos que precisam acertar suas contas antes de conhecer o paraíso.
Desde segunda-feira 22 de fevereiro que o trânsito parou. Com rodízio e tudo, as ruas não dão mais vazão ao número absurdo de veículos que trafegam pela megalópole, numa onda infindável, capaz de deixar qualquer surfista morrendo de inveja.
O duro é que com o aumento dos caros voltaram também os donos das ruas. Aqueles que provavelmente pagam dois IPVAs e por isso se acham no direito de fazer o que quiserem, como se tivessem algum acerto secreto com a prefeitura ou qualquer coisa no gênero.
A tranquilidade com que se para em fila dupla ou nas esquinas onde é permitida conversão, só é batida pela tranquilidade com que o motorista que quer entrar à direita vai até a última fila da esquerda, para cruzar a frente de todo o mundo e entrar, como um galeão espanhol, na rua do outro lado.
O que importa se cruzei a frente de todo o mundo? O que importa se não deu para entrar e por isso fico parado na pista da esquerda atrapalhando o trânsito inteiro? Eu sou legal, eu faço e pronto.
Pois é, foi isso que voltou com o fim das férias e com o retorno da rotina normal dessa cidade de loucos.
O pior é que a CET, que já não pode fazer muita coisa, está numa situação mais fragilizada ainda: por alguma razão não revelada seus agentes estão apenas multando o óbvio, pouco se importando com os desatinos cometidos bem diante de seus olhos.
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