Eu não gosto de quiabo
Ela era positiva, toda vez que lhe ofereciam quiabo, ela respondia: “eu não gosto de quiabo”. E não comia o prato a sua frente, fosse ou não fosse falta de educação. Sua posição sobre o tema era definitiva, ela não gostava de quiabo, portanto não comia o prato com quiabo colocado a sua frente.
A questão é complexa. Muita gente gosta de quiabo, muita gente não gosta de quiabo. Ambos os lados têm razão, pode-se gostar ou não gostar de quiabo, isso não faz o assunto adquirir a dimensão de uma guerra no Oriente Médio, nem justifica uma invasão limitada da Venezuela para retirar o ditador e levá-lo para julgamento nos Estados Unidos.
Para ela, o assunto não merecia maior consideração, ela não gostava de quiabo, então não tinha que comer quiabo, fosse com arroz e feijão, com frango ensopado ou de qualquer outra forma que decidissem lhe apresentar o famigerado alimento. Ela não comia e, também, não via razão para encompridarem o assunto.
Não lhe interessava se quiabo fazia mal à saúde ou se quiabo era saudável, rico em vantagens como vitaminas e suprisse outras necessidades do organismo.
Quiabo era quiabo e ela não gostava de quiabo, então não tinha razão para o assunto prosperar. “Quem gosta de quiabo que coma quiabo, que se empanturre com quiabo, que tome coquetel de quiabo com vodca ou outra bebida da moda; que durma abraçado com quiabo, mas me deixem em paz. É um direito meu não querer comer quiabo porque eu não gosto de quiabo”.
Mas o tema era polêmico, volta e meia discutiam com ela porque ela não comia quiabo, se quiabo era bom, como ela não gostava de quiabo, ainda mais ensopado com frango.
Um belo dia alguém lhe perguntou: você já comeu quiabo? E a resposta foi arrasadora: Se eu sei que não gosto, por que iria comer quiabo?
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