Os ipês do cemitério
[Crônica de 29 de julho de 1998]
Que palavra traz mais rápido a lembrança da paz do que o termo harmonia? Entrosamento, cooperação, ordem perfeita, sincronismo, todas as ideias se conjugam para formar a palavra harmonia, dando-lhe uma abrangência e uma beleza que poucas outras palavras têm.
A harmonia é o paraíso, o lugar ou o estado perfeito, a conjunção completa do corpo e do espírito dentro do universo. O entendimento pleno que extrapola a compreensão humana e que chega até nós através de sensações tênues como as ondas que atravessam o cosmos para nos contar de estrelas que morreram milhões de anos atrás.
Na Vila Madalena tem uma rua que se chama Harmonia. Ela começa nos muros do cemitério São Paulo e vai em direção da Pompéia, cortando ruas com nomes tão poéticos como o seu. Ela é meu caminho de todos os dias, quando de manhã cedo vou para o escritório.
Rua simpática, um pouco antes de chegar na esquina com a rua Aspicuelta, para quem vem do lado oposto do cemitério, ela despenca num ladeirão que abre uma vista ampla do campo santo em frente.
É poesia pura. A rua Harmonia dá para os jardins do cemitério São Paulo, onde os mortos descansam em paz, livres dos atropelos da vida.
Pois a poesia esses dias ficou melhor ainda, por conta de uns ipês roxos plantados dentro do cemitério que decidiram florir como nunca floriram antes.
A gente chega no alto da rua, começa a descida e é surpreendido pelas suas cores, quais borrões impressionistas, pregados no céu pelas mãos de algum anjo.
É uma visão de sonho, mostrando que a cidade grande tem também uma faceta divina que ama o belo e que o divide como um sacrifício.
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