O ipê do cemitério
[Crônica de 8 de agosto de 2005]
Poucas árvores são mais bonitas do que um ipê roxo florido. Se durante a maior parte do ano ela é em média uma arvorezinha de galhos finos, quando chega a época da florada, se reveste de glória, no luxo dos cachos deslumbrantes, enfeitando a árvore sem folhas para dar mais efeito ao colorido maravilhoso.
O ipê roxo demora muito para crescer. Árvore de madeira dura, do fundo das matas, ela precisa séculos para atingir o seu tamanho real, que necessita vários homens de braços dados para contornarem seu tronco.
Essas gigantes das florestas são a cada dia mais raras. A imensa maioria, em 500 anos de história, foi arrancada das florestas da mata Atlântica, por isso não estamos acostumados a ver grandes ipês roxos.
Na cidade esse quadro fica mais raquítico ainda, porque como crescem devagar, não são as árvores ideias para dar sombra paras calçadas, nem para fazer famoso, pelo menos durante sua vida pública, o político que as plantar.
Mas São Paulo tem alguns ipês roxos deslumbrantes. Árvores que estão longe de suas antepassadas nativas das florestas, mas que, na época da florada cumprem o papel de mostrar ao mundo que os ipês roxos, ainda que não sendo árvores de cidade, não ficam devendo nada a ninguém quando o assunto é a beleza de suas flores.
E é aí que São Paulo hoje tem a feliz soma de duas vontades estampadas nas cores maravilhosas que balançam em cima dos túmulos do cemitério do Araçá. O cemitério, com inveja do cemitério São Paulo, se acertou com seus ipês roxos, e estes, dispostos a competirem com as árvores do cemitério rival, se enfeitaram como poucas vezes os ipês o fizeram, dando pra cidade a alegria viva de suas cores deslumbrantes.
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