Ricardo Castro Cunha
Meu amigo Ricardo Castro Cunha morreu. Tem gente que não deveria morrer, pelo menos não assim, quando ele ainda tinha tempo para fazer muita coisa boa, em favor de muita gente.
Domingo sim, outro não, o Ricardo me telefonava, invariavelmente de Cuiabá, onde morava, mas, às vezes, de outros lugares, como de sua fazenda no Paraná.
Ricardo era produtor rural e se alguém conhecia bem esse interiorzão era ele. Conhecia a terra e seus moradores. Ricardo tinha amigos espalhados pelo Brasil. Suas relações iam de grandes fazendeiros e empresários de todos os setores a políticos, pilotos e funcionários de fazendas espalhadas pelo interior.
Ele não fazia diferença na forma de tratamento. Todos eram tratados com grande educação e respeito. Ricardo gostava de ouvir e ouvia vaticínios políticos, palpites para o jogo do bicho, previsões para a próxima safra, como o amigo tinha se separado da mulher, o preço da arroba do boi, o futuro do milho no Mato Grosso, o resultado do futebol de botão em Piracicaba, e o mais que lhe falassem.
Isso fazia dele uma pessoa extremamente bem-informada e um papo rico e variado. Ele trafegava por todos os assuntos com a facilidade de quem ouve muito e por isso sabe muito.
A cada 15 dias ele me telefonava e a conversa começava sempre com: Nico como você está vendo o Brasil? Daí saíamos para coisa sérias e outras não tão sérias, como a volta das onças nas fazendas de gado e a tentativa de golpe de estado comandada por uma senhora que atacou a estátua da justiça com um batom vermelho.
Ricardo tinha uma preocupação séria com o futuro do Brasil e ele ia além das palavras. Gente como ele quando morre faz falta.
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