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As histórias de amor

 

As grandes histórias de amor têm, invariavelmente, um final trágico. Uma das mais antigas é a Ilíada. Por causa da promessa de uma deusa, dois mortais se apaixonam e, depois de uma guerra de dez anos, a cidade de Tróia é destruída. Curiosamente, Helena, que, ao fugir com Páris, dá causa à guerra, no final volta para os braços do primeiro marido e os dois retornam a Esparta, onde seguem reinando até serem esquecidos.

Abelardo e Heloísa não é romance, nem poesia, é história de verdade. Brilhante filósofo, o pensador mais importante da Universidade de Paris, se apaixona por Heloísa e os dois vivem uma história proibida de amor e beleza. Abelardo é religioso. O romance é revelado e o final trágico eu deixo para vocês descobrirem.

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Romeu e Julieta tem tantas versões que só falta uma releitura da história com a fuga dos dois para algum paraíso à beira mar, onde viveram felizes para sempre. Em vez disso, o drama é a morte dos amantes dentro do túmulo. Romeu não sabe que Julieta não morreu, que seu enterro é um plano para que possam fugir e viver sua história. Romeu e Julieta, além da tragédia em si, traz a brevidade da possibilidade de se ser feliz.

As verdadeiras histórias de amor não têm história. A comunhão não tem drama, não tem hesitações, não tem dúvidas. Ou se é feliz ou não se é. Não existe meia felicidade, assim como não existe felicidade perene.

A felicidade é um átimo de transcendência, de iluminação, de interação com a eternidade do cosmos, com o começo de tudo, com a divindade. A felicidade não tem tempo, não tem começo, nem fim.

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A felicidade é uma dádiva que os deuses distribuem com parcimônia. E o que é felicidade para você não é necessariamente felicidade para mim.

Por isso os grandes amores não têm história: eles são vividos, não são narrados. Neles a felicidade acontece porque é construída.

Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). É provedor (presidente) da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.