Antigamente
Antigamente, a vida tinha algo de maravilhoso, como se os contos de fadas fossem verdade e ser herói fosse fácil.
Ser herói podia ser fácil, mas ser o príncipe era mais complicado. Ser príncipe tinha vantagens indiscutíveis, mas a escolha do príncipe seguia critérios subjetivos da dona da peça, que era também a chefe do grupo, a prima mais velha, que determinava quem era quem, ou mesmo o quê, do príncipe a uma árvore que ficava parada no fundo do palco.
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Do outro lado da cerca de arame farpado separando a fazenda não existia o mal, não existiam pragas e as grande pestes ficavam do lado de fora, sem conseguir ultrapassar os quatro ou cinco fios de arame estendidos pelos mourões.
Do lado de cá era a vida como ela é, do lado de lá era a vida como ela deveria ser. Com por do sol e sinos tocando às seis horas da tarde, anunciando a Ave Maria e a hora de entrar no mato para muito hipoteticamente caçar tatu.
Do lado de lá eram as manhãs frias, com a geada cobrindo os pastos, a névoa subindo da terra e o vapor saindo da boca, enquanto cavalgávamos para buscar a tropa de cavalos espalhada no morro.
Depois era arreá-los e sair para o passeio diário. Às vezes mais curtos, às vezes mais longos, às vezes muito longos, até distantes fazendas de primos e amigos, a muitas horas de cavalgada.
A vida tinha cheiro. Cheirava a terra molhada, suor de cavalo, capim amassado, eucaliptos, goiaba e mato.
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A natureza tinha cor. Intensamente azul no céu de outono, nas flores das paineiras e no capim gordura tingindo de bordô as encostas dos morros. De noite, o céu densamente estrelado iluminava a vida no terreiro e nós ficávamos lá, em paz, sentindo a noite, sem pensar no feio deste mundo.
Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.