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O gajeiro da esperança

Olá gajeiro real, o que você vê do alto de sua cesta, neste mastro de esperanças enfunando rotas rumo ao sul?

Que distâncias te apontam o voo das aves que cruzam imensos horizontes para mostrar o rumo seguro das terras escondidas?

Quanta solidão te faz mais esperto, desvendando os segredos dos sargaços espalhados pelo mar? E quanta melancolia te enche as horas desertas?

As distâncias marinheiras são muito mais longas que as milhas náuticas. Nelas, o azul profundo transcende o azul do céu e o sol refletido é outro, mais quente porque te queima os olhos.

Ah, gajeiro de navegações mais duras e mais cruéis onde a vida pouco valia em nome de El Rei. Quanto de teu sonho salga estas terras achadas por Portugal?

Gajeiro da minha infância em Cananéia. Das pescarias de robalo em rios com nomes poéticos como Itapitangui. E costões altos. E ilhas como a Ilha da Casca e sua festa do Divino, no meio da baia do Trepandé.

Gajeiro de meu pai declamando a velha canção portuguesa, e meu tio Julio Salles contando histórias da Nau Catarineta.

Gajeiro da Gávea de Martim Afonso e dos 40 dias que ficou em Cananéia, sempre debaixo de chuva, esperando para fundar a primeira vila do Brasil.

Gajeiro de tantas rotas perdidas. De tantos portos escondidos pela névoa. De tanta separação marcando fundo as amuradas e as armaduras. Gajeiro da saudade daqueles que foram para não voltar.

Gajeiro de minha nau, que sou eu mesmo olhando os horizontes. Tentando desvendar os caminhos desta vida.

Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). É provedor (presidente) da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.