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Os pinheiros

Os pinheiros não são árvores brasileiras, ou melhor, alguns pinheiros não são, porque outros, como as araucárias, são. O bairro de Pinheiros chama-se Pinheiros por causa da árvore que hoje é símbolo do Paraná, mas que em outras épocas, quando as matas nativas ainda cobriam grande parte do estado de São Paulo, chegavam não só na capital, como se espalhavam pelo interior, dando nome a cidades como Espírito Santo do Pinhal e São Carlos do Pinhal.

Mas os pinheiros que me servem de inspiração são os pinheiros europeus. As árvores cuneiformes que normalmente não perdem as folhas nos meses de inverno, preservando seu verde escuro durante o ano todo.

Os pinheiros são árvores tristes. Quem sabe sejam, de verdade, melancólicos. O fato é que passam sensação de nostalgia, de coisa já vivida e que deixou saudades, impedindo a vida de seguir em frente, amarrada pela lembrança do que foi bom, mas já não é.

Os pinheiros não dão flores, e no Brasil, não servem de poleiro para a maioria das aves. Um pinheiral costuma ser um deserto verde escuro, onde o vento esconde seus segredos nas folhas finas e longas das árvores sem alegria. E onde, também, as mutucas e os mosquitos gostam de se esconder.

Pode ser que o problema dos pinheiros seja só de adaptação, ou nem isso. Eles simplesmente têm uma forma típica, cônica, que somada às folhas escuras e finas como agulhas, passa a impressão de que estão tristes e que por isso seriam árvores tristes.

Eu não sei qual a verdade. Ainda não descobri a língua dos pinheiros para saber sua história. De qualquer jeito, gosto deles. Da sua forma e da nostalgia do seu jeito. Eles me falam da luta pela vida.

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Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). É provedor (presidente) da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.