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Os buracos de verão

É só cair a primeira chuva para se animarem e colocarem a cabeça de fora. Como as sementes que ficam anos a fio esperando uma chuva para germinar no meio do deserto, os buracos de verão ficam meses esperando a volta da temporada das tempestades violentas, para ajudados por elas, quebrarem o asfalto e se imporem, sem ligar para ninguém e sem medo de ser felizes.

Os buracos de verão variam de tamanho. Vão do mais pequeno a imensas crateras, capazes de devorar um carro com motorista e passageiro dentro.

Também não pedem muita licença para se instalar. Normalmente não são exigentes. Qualquer asfalto mais ou menos jeitosos serve, ainda que tendo outros buracos para dividir o mesmo espaço.

Raramente eles chegam de uma vez e se mostram em toda sua grandeza, expondo o imenso perigo que é trafegar próximo deles, para rodas e suspensões.

Os buracos de verão são extremamente disciplinados. Não se precipitam, nem se apressam, mas avançam devagar, como os caçadores de leões dentro da savana alta.

Para eles é melhor esperar um ou dois dias a correrem o risco de serem descobertos antes de estarem prontos, permitindo que a prefeitura jogue sua gororoba de asfalto para tapá-los antes da hora.

Os buracos de verão sabem que a união faz a força e que é com jeito que se chega lá. Explode um aqui, outro ali, maior, um terceiro na rua do lado, até que uma cratera afunda uma avenida, chamando a atenção de todos, para dar tempo aos outros se consolidarem em suas ruas e calçadas, com calma, tirocínio e competência.

 

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Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). É provedor (presidente) da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.