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O descaso com os deficientes

[Crônica do dia 20 de maio de 1997]

Com certeza poucos países do mundo têm o mesmo descaso que o Brasil tem com os seus deficientes físicos. Aqui, ao contrário do que acontece no mundo dito civilizado, os deficientes são quase que permanentemente marginalizados, na rua, no trabalho, em casa…

Isto mesmo, até em casa. A imensa maioria das moradias nacionais não está vagamente aparelhada para dar um mínimo de conforto a um deficiente físico e, o que é mais triste, encontrar os equipamentos necessários para adapta-las é uma verdadeira guerra. As peças, quando existem, não estão disponíveis, e precisam ser encomendadas para um futuro que às vezes é muito comprido.
mas se as casas não estão aparelhadas, o que dizer dos serviços públicos!

Até o metrô paulistano, tido e havido como um exemplo de civilidade numa cidade selvagem, não está equipado para atender os deficientes físicos que por ventura precisem se servir dele.

Suas escadas rolantes são estreitas, as catracas são incômodas, os guichês são altos.

Os ônibus são uma verdadeira piada. É verdade, todos têm lugares reservados para idosos, deficientes físicos e mulheres grávidas, mas quem já prestou atenção neles deve ter-se horrorizado.

Os lugares reservados são justamente os mais inacessíveis. Eles ficam sempre em cima das rodas da frente, e por isto são mais altos e mais estreitos.

Mas, mais grave do que esta piada de mau gosto são as suas entradas. Com portas pequenas e seguidas duma escada que mais parece pista de treinamento para alpinistas, não há como uma cadeira de rodas passar por elas, e, se passar, não há dentro do ônibus um único lugar que ela possa ficar, com um mínimo de conforto.

São detalhes deste tipo que mostram o grau de civilização alcançado por um povo. A nação que se esquece de zelar pelos seus filhos mais necessitados, com certeza é um país com problemas muito sérios.

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Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). Provedor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (2017/2020), atual Irmão Mesário da Irmandade, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.