Almoço com final surreal
Domingo, você está com sua família, almoçando num belo restaurante. O papo flui fácil, todos estão de bem com a vida, enfim o domingo ideal, aquele que não acontece toda semana, mas que quando acontece é a melhor coisa que existe.
A comida é boa, a lula estava maravilhosa, o filé também, a massa melhor ainda e todos avançam na sobremesa. Sorvete, torta de maçã, bomba de chocolate… que mais o dia precisa para desenhar a perfeição?
Todos almoçaram bem, ou melhor muito bem, e estão em paz com o mundo. Tanto faz o que Trump faça, ou a guerra da Ucrania, ou a barbaridade em Gaza. Neste domingo à tarde, a vida vai seguir seu rumo se esquecendo das coisas feias e tristes, dos desmandos que entortam o mundo, das bandalheiras que tomam as manchetes dos jornais.
Não tem por que ser diferente. Não tem nada no horizonte que indique outra coisa, então é deixar o tempo passar, pedir o café e a conta, pegar o carro, voltar para casa e ter certeza de que ser feliz é possível, com o canto do sabiá arrematando o dia.
Só que a vida tem imprevistos. Da mesma forma que as tempestades se formam rapidamente e sem aviso, encobrindo o horizonte e trazendo a chuva nas rajadas de vento, de repente, o mundo cai na sua cabeça, na forma de uma mulher e seu marido, que você conhece vagamente e que não vê há trinta anos, que, sem pedir licença, se atiram em cima de você e da sua família com a violência de um tornado e a inconveniência de quem é completamente sem educação e sem noção.
Ela fala como uma metralhadora atirando para todos os lados. Você é você, ela é ela. É irmã de não sei quem, contraparente de não sei quem, seu marido é um chato, e por aí vai, numa falação que não te interessa. Você não tem o que responder, de qualquer jeito seu domingo, acabou.
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