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A igreja de Santa Cecília

[Crônica de 7 de fevereiro de 2000]

A igreja de Santa Cecília fica num largo hoje bastante deteriorado, com metrô e camelôs na esquina, na frente e do lado. Seu largo já foi simpático e seu bairro dos bairros finos de São Paulo. Faz tempo que isso aconteceu, mas aconteceu e serve para mostrar a rapidez com que São Paulo muda, todos os dias, ficando de cara nova em outro ponto, mas deixando suas caras velhas vivas, servindo para outra coisa, completamente diferente da original.

A capela original começou a ser construída em 1860, quando os moradores do então incipiente pedaço da cidade, munidos da competente ordem da câmara, ergueram um pequeno templo, de madeira, que além de Santa Cecília, homenageava São José.

Mas São Paulo crescia e Santa Cecília estava em seu caminho. Com o desenvolvimento a capela acanhada deixou de atender os anseios dos moradores e, no começo do século, a igreja atual começava a ganhar forma, rica, refletindo o poder dos habitantes de sua região, decorada com obras de Benedito Calixto e Oscar Pereira da Silva.

Como prova de sua importância a igreja ganhou para sua torre um dos sinos da antiga Sé, que tocaram saudando a independência do Brasil, assim que o novo imperador entrou na cidade.

Durante décadas foi uma das igrejas preferidas para os casamentos da cidade, tendo sido palco de cerimônias sofisticadas, assistidas por gente a mais elegante.

Mas, como que provando que São Paulo é cruel e que o poderoso de hoje pode estar quase esquecido amanhã, a igreja e seus arredores foi atingida pela decadência que mudou a cara do bairro, abrindo os espaços outrora ricos para a miséria mais impressionante, que se reflete no largo triste sujo para onde olha a fachada de Santa Cecília.

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Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). Provedor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (2017/2020), atual Irmão Mesário da Irmandade, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.