As igrejas paulistas
[Crônica de 9 de janeiro de 2002]
Boa parte de nossa história o Brasil teve dois grandes polos de desenvolvimento e dois grandes polos políticos. Os dois polos de desenvolvimento foram São Vicente e Pernambuco e os dois polos de poder a Bahia e o Rio de Janeiro.
As diferenças podem ser vistas por quem visita as cidades que serviram de centro para este processo, que refletem com crueza a vantagem do poder sobre o desenvolvimento, durante toda a fase colonial da história do país. Rio e Salvador são, guardadas as proporções de uma colônia em relação ao reino, grandiosas. Recife e Olinda são ricas e São Paulo positivamente pobre.
A razão para a pobreza paulista está na forma como a cidade foi usada para conquistar e colonizar o interior do Brasil. Desde o seu começo, com as primeiras bandeiras de caça ao índio, a cidade se esvaziava, cada vez que uma campanha destas tinha início. Boa parte dos homens da região se engajava na expedição.
Alguns morriam, e outros iam ficando pelo sertão, fundando pousos, que seriam usados como base pelas bandeiras que viriam depois.
Com a descoberta do ouro esta situação se agravou. Uma imensa parte dos paulistas migrou primeiro para Minas Gerais, depois para Goiás e Mato Grosso.
O resultado foi uma cidade colonial pobre, que até a segunda metade do século 19 tinha pouca importância na vida nacional.
E esta pobreza se reflete nas igrejas coloniais paulistas. Comparadas com as igrejas do Rio de Janeiro e de Salvador, e mesmo com as de Recife e Olinda, elas são paupérrimas, tanto em linhas arquitetônicas, como em objetos e riqueza interior. Mas não quer dizer que sejam feias. Dentro de sua simplicidade, elas exprimem a beleza reta de um povo que não teme o desconhecido e que se atira a ele para fazer dos sonhos realidade.
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