O Jequitibá não se entrega
[Crônica de 10 de fevereiro de 1998]
No final do ano passado tentaram matá-lo. Num incêndio assassino, sem pé nem cabeça, um ou vários vândalos colocaram fogo no oco do seu tronco. O que leva alguém a cometer uma sandice deste calibre é tão incompreensível quanto o que leva alguém a atirar gratuitamente na cabeça de uma mulher grávida.
Durante dias ele queimou, mobilizando gente de toda a região, mal equipada para combater o fogo, mas disposta a não desistir enquanto as chamas não fossem dominadas.
Bombeiros, homens, crianças e mulheres se uniram no esforço hercúleo mas quase sem esperança de salvá-lo. O importante era lutar. Lutar contra o fogo e contra a burrice que acha graça em atear fogo no tronco de uma árvore milenar.
A mesma burrice que destrói as placas das estradas, que briga nos estádios de futebol, que acha que existe gente melhor do que a outra.
A luta contra o fogo que consumia o Jequitibá de Carangola era a mesma luta que há milênios coloca o bem frente ao mal e que exige do homem a sua participação para que a luz se espalhe e o novo tempo traga uma era de paz.
Era que poderia estar próxima, mas que se afasta em ações como esta e tantas outras que mostram o desencontro das pessoas neste final de milênio, quando a vida nunca foi tão fácil e tão longa, nem tão dura e tão louca.
Depois de esforços sem tamanho, depois de atos da maior grandeza, praticados por gente humilde e anônima, que queria somente salvar a árvore, o fogo da barbárie que comia o tronco gigantesco foi dominado.
O que ninguém sabia é se o Jequitibá teria forças para reerguer-se, para ser de novo uma árvore saudável e viver sua calma vida de árvore no interior de Minas Gerais.
E eis que ele volta a ter brotos. Volta a vida como se Guimarães Rosa tivesse escrito; “sapo não pula por boniteza, mas por precisão”, pensando nele, antevendo o futuro e a vitória do Jequitibá.
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