As jaboticabeiras carregadas
[Crônica de 23 de março de 2010]
Minhas filhas não gostam de jabuticaba. É uma enorme diferença em relação a minha geração. Eu adoro jabuticaba e jabuticaba boa é a que se come no pé.
Uma explicação é que ao longo dos anos o Brasil mudou. Mudou profunda e completamente, deixando de ser o país semi-agrícola da minha infância para se tornar uma nação eminentemente urbana, ainda que boa parte do nosso PIB nasça no campo.
Eu tive a sorte de crescer na fazenda da família, em Louveira. As primeiras lembranças são de uma cidadezinha parada, com todas as ruas de terra, inclusive a avenida principal que também era a estrada velha de São Paulo a Campinas.
Carroças, charretes e cavalos eram meios de transporte normal. A rodovia Anhanguera raramente tinha trânsito e a velocidade na época já era mais realista que a atual. Os 80 quilômetros por hora subiram para cem, numa época em que carro era Aero-Willys, Simca, Fusca, DKWs e, logo depois, bons e possantes Galaxies, Opalas e Dodges Dart.
Não tinha sede de fazenda, sítio ou chácara que não tivesse um pomar com jabuticabeiras e mangueiras plantadas. Outras frutas podiam ou não estar plantadas no pomar, ou na frente da sede, mas jabuticabas e mangas, estas, não negavam fogo.
E as jabuticabeiras tinham uma particularidade importante: suas frutas amadureciam entre o fim de agosto e outubro. O que era motivo para nesta época chegar lá, nem que fosse um único fim de semana.
Agora o tempo está tão louco que as jabuticabeiras perderam os referenciais. Depois de uma safra acanhada, na época certa, é a terceira vez que carregam, de novo com muito mais frutas do que em outubro.
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