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A igreja do Divino Espírito Santo

[Crônica de 22 de novembro de 2000]

Descendo a rua Frei Caneca, mais ou menos dois quarteirões para baixo da maternidade, fica a igreja do Divino Espírito Santo. É uma igreja cinza e feia, num lugar feio e cinza, erguida do lado direito da rua, num outeiro que no passado tinha uma vista bonita, mas, que, hoje, mesmo se tivesse vista, estaria longe de ser bonita.

É uma igreja austera, sem estilo definido, com uma única torre com relógio no alto. Lendo sua história se descobre que não é uma igreja antiga, voltando apenas ao começo do século 20, quando a capela original foi aumentada, recebendo os puxados que completaram suas linhas de igreja de cidade do interior.

Meio escondida pela cidade, a igreja do Divino Espírito Santo no alto de sua colina é um marco da vinda dos açorianos para a cidade de São Paulo. Aliás, por conta dela, descobri também que a rua Bela Cintra não se chama Bela Cintra por causa de alguma senhora que tivesse este apelido e que fosse amiga do Frei Caneca ou do Haddock Lobo.

Não, a origem do nome está numa homenagem que o dono dos terrenos, no século 19, então para serem loteados, fez à cidade de Cintra, porque o local, por sua altura e pela bela vista do centro da cidade, lhe lembrava a linda cidade portuguesa. Bela Vista que também deu nome ao bairro.

Voltando à igreja do Divino Espírito Santo, sua história razoavelmente moderna mostra como a cidade cresceu rapidamente ao longo do século 20.

Erguida em lugar privilegiado, no alto de uma colina que dominava uma vasta região, com uma vista linda da São Paulo dos primeiros anos de 1900, atualmente, a igreja fica quase escondida, mesmo no alto, num lugar que perdeu seus encantos, dividindo o espaço com um hotel bastante suspeito que fica na esquina debaixo.

Cinza e triste, cercada de cinza e decadência, a igreja do Divino Espírito Santo não é bonita, nem fala de alegria.

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Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). Provedor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (2017/2020), atual Irmão Mesário da Irmandade, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.