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Milagres acontecem

[Crônica de 28 de junho de 2006]

Por incrível que pareça os milagres acontecem. E acontecem até numa cidade como São Paulo, onde coisas deste tipo deveriam ser mais difíceis de acontecer, pela falta de fé de parte do povo ou pelo excesso de fé da outra parte que corre atrás dos milagres como se eles acontecessem sem mais nem menos, por uma reza ou um pedido, feito sem muita convicção.

Os milagres transcendem as estátuas das virgens chorando. Deus não gastaria um milagre com uma bobagem deste tipo. Não é do seu feitio pragmático. Pelo contrário, na ótica divina, não há razão nenhuma para estatuas chorarem. De choro, chega o das pessoas.  Tanto isso é verdade que a última estátua que chorou foi uma Nossa Senhora, na igreja de Louveira, que, quando foram ver, chorava água do poço atrás da igreja, colocada nos olhos da estátua, convenientemente, pelo coroinha.

Meu milagre é muito mais milagroso. Ele envolve o trânsito alucinado e sem sentido da cidade de São Paulo. Pasmem. O trânsito estava andando, às 8 e meia da manhã de um dia destes, quando saí de casa, me preparando mentalmente para a batalha diária de enfrentar as ruas e mais que elas, o medo de estar nelas.

Andou na vila Madalena inteira. Na Fradique Coutinho, na Inácio Pereira da Rocha e na Luis Murat. Depois andou na rua Ásia. E na Rua Lisboa. E na avenida Sumaré. Para continuar andando no rumo do Pacaembu, até descer a Almirante Pereira Guimarães, e continuar firme, sempre em frente e totalmente livre, o que mostra que foi milagre dos bons, porque ajudou muita gente a chegar mais rápido, fosse aonde fosse.

E a prova que foi milagre para converter infiéis, é que no dia seguinte, o mesmo trecho se arrastava de novo, na velocidade da CET.

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Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). Provedor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (2017/2020), atual Irmão Mesário da Irmandade, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.