Passeios e passeios
[Crônica de 2 de maio de 2003]
Os guerreiros chineses desembarcaram em São Paulo para tomar os corpos e as mentes da população, fazendo do Ibirapuera um lugar de romaria obrigatória para uma boa parte da cidade.
Os guerreiros de Xi’an, no passado, tiveram missão mais nobre, e em vez de servirem de atração para milhares de paulistanos que saem da Oca embasbacados, eram os guardiões do sono eterno do primeiro imperador.
Soldados de um exército imenso, os guerreiros expostos no Ibirapuera saíram de seu esconderijo, descoberto no fundo da terra não faz muitos anos, para conquistarem o Brasil, país que nunca souberam que existia, até embarcarem num avião, cruzarem o Pacífico e os Andes, para aterrizarem do outro lado do mundo, numa cidade alucinada, aonde até o presidente da república veio recepcioná-los.
Mas nem todos têm a chance de visitar a exposição. Muitos por falta de tempo, outros por falta de dinheiro e alguns por falta de saúde.
Foi uma parte deste último grupo que despertou a atenção da direção do Hospital do Servidor Público Estadual, que decidiu levar ao Ibirapuera, ver os guerreiros de terracota, um grupo de doentes internados lá.
Composto por crianças e jovens cuja rotina é dura, triste e desalentadora, e por idosos dispostos a tudo para serem outra vez uma parte viva da sociedade, o grupo formado pelo Hospital do Servidor Público Estadual para visitar os guerreiros de Xi’an é uma lição de vida e, muito mais, uma terapia extremamente eficiente, quem sabe, até mais do que os remédios e as drogas usados para auxiliar na cura dessas pessoas.
___
Siga nosso podcast para receber minhas crônicas diariamente. Disponível nas principais plataformas: Spotify, Google Podcast e outras.
Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.