A morte aos 108 anos
[Crônica de 16 de julho de 2002]
Cento e oito anos depois, morrer, normalmente, já fez parte do programa faz tempo. Poucas pessoas, atualmente, atingem esta idade, muito menos em condições de decidir seu destino e menos ainda de decidir se é o momento de tomar uma atitude definitiva, capaz de por fim à vida, mesmo não sendo necessário, nem tendo chegado a hora.
Por isso a notícia tem alguma coisa de espantosa. Uma senhora inglesa, de 108 anos de idade, morreu porque fez uma greve de fome contra a tentativa de mudá-la de asilo.
Por não concordar em mudar, aos 108 anos de idade, esta senhora deliberadamente se recusou a se alimentar, correndo o risco de morrer de fraqueza, agravada pela idade avançada.
São poucas as pessoas no mundo que têm coragem de lutar até as últimas consequências por suas ideias e posições. A maioria cede antes. É humano, apesar de não ser tão belo.
As poucas que o fazem dão à espécie uma grandeza única, comparável à grandeza da seleção brasileira conquistando o tricampeonato em 1970.
A grandeza dos atos definitivos, da luta lúcida, atrás de um resultado que pode ser doloroso, mas que é consequente e que dá vida a vida de quem tem coragem de aceitá-lo e manter-se fiel a ele até o último minuto.
Aos cento e oito anos de idade a imensa maioria das pessoas não pensa nada, porque já morreu faz tempo, mas, provavelmente, as que chegam lá, pensam e muito, e mais, têm opinião formada a respeito da vida e da morte, e são capazes de serem consequentes, por isso vão em frente, como se a vida fosse um corredor sem fim, para servi-las pelo tempo que desejarem, ou estiverem achando graça na brincadeira.
A morte desta senhora, por fraqueza decorrente de uma greve de fome num protesto deliberado contra o que fizeram com ela, engrandece em muito a raça humana.
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