Meu bisavô que era feliz
[Crônica de 8 de novembro de 2001]
Meu bisavô é que era feliz. Aliás, ele e todos os que moravam em São Paulo na virada do século 19 para o século vinte. A cidade ainda era pequena e seus problemas mais graves se resumiam a notícias como esta, publicada na coluna “há um século” do jornal O Estado de S. Paulo: Prisão. Num café da travessa do Braz, foi preso ontem, à noite, por ter esbordoado seu patrício Randolfo Matheus, o italiano Francisco Lorecchio, que já se acha recolhido ao posto policial do Braz.
Imagine, a violência que era notícia de jornal era o esbordoamento de alguém! Mas, mais sensacional ainda, o esbordoador, quando a notícia foi publicada, já estava preso!
Quem me dera que os crimes de hoje se resumissem a eventuais esbordoamentos, por causa de briga de botequim! E quem me dera que todos os crimes tivessem a solução rápida, com a prisão do malfeitor, em menos de 24 horas!
Meu bisavô era muito feliz e não sabia. Nem ele, nem os outros moradores da cidade, como um que colocou dinheiro do lado de fora da porta da sua casa para mostrar que não estava quebrado, como andavam dizendo.
Era uma época mais mansa, onde os criminosos mais conhecidos tinham nome e eram poucos, sendo que, normalmente, ou eram capturados ou morriam em luta com a volante, a tropa especial da polícia paulista que corria o interior do Estado, perseguindo os bandidos mais perigosos.
Quanta diferença para hoje, quando o mesmo jornal, todos os dias, no mesmo caderno, traz notícias como: “Dois chineses são assassinados e um fica ferido no centro de SP”. Ou “Famílias pagam resgate e põem fim a sequestros”.
Era outro tempo, mais calmo e menos violento… e com outra classe de políticos – que é o que faz a diferença.
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