As faixas das ruas
[Crônica de 11 de outubro de 2007]
Deve existir um acordo mágico que o comum dos mortais não fica sabendo. Não há outra hipótese possível para o mistério que há alguns anos faz com que as ruas de São Paulo se diferenciem em função do amor ou amizade do gestor da coisa pública.
Repare. Tem rua com faixa no chão e rua sem faixa no chão. Mais. Tem rua com faixa serrilhada ao longo de todo o percurso e tem rua que só tem faixa de pedestre pintada. E tem ainda as que não tem nada, e as que além da faixa de pedestre, têm um começo de linha serrilhada que para ninguém sabe por que dez metros na frente.
São diferenças que mostram no mínimo que alguém gosta mais de uma rua do que da outra. Que por razões diversas da preferência pelo time de futebol ou da religião, determinadas vias são segregadas; ficam sem o sacro direito de se apresentarem belas, e assim serem escolhidas para as fotos de cartões postais.
Seria caso mesmo de se invocar a determinação constitucional que veda terminantemente toda manifestação de racismo. Porque o que estamos assistindo não é mais que isso. Racismo. Racismo puro, levado às últimas consequências, como se fosse aceitável tentar diminuir o ego das ruas com medidas tão sórdidas como esta.
O que a rua Valentim Gentil pode sentir depois de ver que seu asfalto novo não recebeu a faixa branca impressa na Avenida Afrânio de Oliveira? E a Rua Mourato Coelho, recapeada há mais de dois anos e até hoje com pouco mais que as faixas de pedestres? Será que os psicólogos da prefeitura já se preocuparam com o estrago causado? Provavelmente não. Se eles não se preocupam nem com a saúde mental dos marronzinhos, o que dizer do humor das ruas.