Um símbolo com várias notas
[Crônica de 14 de julho de 1998]
No Brás, perto do metrô, está escondido um dos símbolos mais bonitos de São Paulo: o Memorial do Imigrante.
Instalado na antiga hospedaria do imigrante, construída no século passado para receber os que se aventuravam atrás de uma vida melhor, o memorial é uma viagem no tempo, que nos remete aos anos em que a hoje rica Europa e o riquíssimo Japão expulsavam seus filhos para outras terras que estavam por fazer, por não ter como mantê-los em seu solo.
É uma viagem fascinante porque nas instalações do Memorial foi preservada as instalações e as mesmas condições que à época São Paulo, muito à frente de seu tempo, oferecia aos que vinham de longe, auxiliar-nos a construir um novo país, mais rico, mais justo e mais humano, substituindo o antigo braço escravo pelo trabalho remunerado de famílias inteiras que atravessavam os mares do mundo em busca do trabalho que não tinham em seus países, em busca das chances que seus filhos não teriam em seus países de origem.
É uma viagem no tempo para um tempo em que o sonho impulsionava os que vinham, e o progresso e o lucro os que estavam por trás da sua vinda.
É tolo supor que a imigração aconteceu sem querer. A imigração para São Paulo foi deliberadamente pensada e posta em prática por homens de visão que sabiam que a escravidão não era o melhor sistema de produção e que estava com seus dias contados.
Por conta deles foi montada toda uma estrutura para incentivar a sua vinda e recebê-los com a dignidade indispensável para fazê-los sentirem-se seres humanos numa terra nova, onde muitos não compreendiam sequer a língua.
Valeu a pena?
A resposta é a cidade, o estado e o país com as caras que têm hoje. Sem os imigrantes que vieram para São Paulo o Brasil seria outro. É esta saga que a antiga hospedaria mostra, transformada em memorial.
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