Os papagaios voltaram
[Crônica de 6 de abril de 2000]
Faz pouco tempo Maria Antonieta – uma ouvinte e não a rainha da França – me escreveu, contando das pipas, que em outros tempos aqui em São Paulo se chamavam papagaio, e que elas voltaram para os céus da cidade, na região da Vila Madalena.
Confesso que a carta me deixou comovido. Mais comovido do que se a rainha decapitada baixasse numa sessão espírita e psicografasse uma mensagem para mim.
É que eu me lembrei de quando era menino e, no Guarujá, tentava, primeiro, com cola, bambu e papel de seda, construir meu papagaio, o que acaba sempre mal; para, segundo, comprar um papagaio, que, também nunca voava bem.
Eu sei que é uma falha grave na minha formação, mas sou obrigado a confessar: nunca fui capaz de montar um papagaio que voasse e, os que comprava e que voavam, sob meu comando também voavam mal, porque nunca soube manobrá-los direito.
Não é minha culpa, é que nunca tive jeito para a coisa; não nasci para isso, como nunca soube pilotar motocicleta, nem jogar bacará, nem ser vereador em São Paulo.
São deficiências que me limitam, mas a limitação não significa que eu não tenha uma enorme admiração – sem inveja – por quem se saia bem nelas.
E os papagaios, que depois que eu cresci viraram pipas, numa homenagem aos cariocas, chegam mesmo a me comover.
Vê-los, altos, solitários ou em bandos, flutuando no céu, tem qualquer coisa de mágico, como se através dos fios que os ligam aos meninos que os empinam, fosse possível nos ligarmos ao infinito, para falar com os anjos.
Os papagaios são um portal inexplorado para nos abrir a imensidão do cosmos. Através deles todas as possibilidades se tornam factíveis e os sonhos sobem, para se misturar aos astros, pegando carona na cauda dos cometas.
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