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A tragédia anunciada

 

O Guarujá foi palco de uma tragédia anunciada faz muitos anos e cujo roteiro se repete regularmente nas mais variadas regiões do Brasil. O que aconteceu lá não foi mais do que o óbvio. O morro veio abaixo porque foi ocupado e maltratado da forma mais irresponsável possível. Quem pagou a conta foi quem não tinha nada com isso, mas, pelas circunstâncias da vida, morava no lugar errado, na hora errada.

Ninguém escolhe morar numa área de risco. Ninguém escolhe ficar numa construção irregular, pendurada numa ribanceira, cercado por outras construções precárias, erguidas em lugar impróprio.

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As pessoas fazem isso porque não têm alternativa. Precisam morar em algum lugar e o lugar que lhes é indicado – como única e última opção – é a encosta de um morro, que pode ruir a qualquer momento, ou uma várzea que vai inundar, depois que for ocupada sem qualquer estudo ou sobre como isso pode ou deve ser feito.

A culpa do que aconteceu no Guarujá, ao contrário das declarações desastradas do prefeito do Rio de Janeiro, não é dos moradores, é das autoridades que permitem, quando não incentivam, as ocupações irregulares e as construções sem qualquer segurança em áreas absolutamente impróprias para o ser humano morar.

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A tragédia do Guarujá é apenas mais um retrato da irresponsabilidade de boa parte da administração pública brasileira, que não só permite ocupações irregulares, como depois as perpetua e cobra IPTU.

Este ano foi pródigo em deslizamentos de morros e desmoronamentos de imóveis. Acontece todos os verões e este não foi exceção, ao contrário, as chuvas torrenciais aumentaram o número de acidentes.

Enquanto não começarem a tratar a ocupação irregular do solo como assunto sério, as tragédias vão se repetir e inocentes continuarão a morrer.

Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

 

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). É provedor (presidente) da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.