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Desencontro

Os desencontros acontecem. E a vida passa, indiferente à felicidade que perdeu o barco, aos amantes que perderam a chance, ao que poderia ter sido, mas nunca será.

A vida passa. Toca em frente, visita outras praias, outras nuvens no horizonte, vê o sol ao meio dia e se emociona com o pôr do sol puxado pela Ave Maria tocada num sino de capela de fazenda.

A vida passa. Segue seu curso, indiferente ao mundo em volta ou ao indivíduo dentro do mundo.

Para ela a felicidade do próximo é problema do próximo. A vida segue em frente, encontra outras pessoas, reparte com elas os momentos bons. A alegria que bate à porta, o pão na mesa, o fogo aceso.

Não adianta esperar, ela não vem. Como a chuva que não cai e depois de um tempo não deixa sequer uma esperança nas nuvens que não chegam.

O desencontro cruzou a linha, deixou confuso o que deveria ser claro, remarcou o encontro inadiável de hoje para depois de amanhã.

A vida segue em frente. Se abre de outra forma para outras pessoas. O que é bom para um não é necessariamente bom para outro.

A sensação de perda pode ser diferente. As leituras não são iguais, nem semelhantes. O ser humano não é igual, é apenas vagamente semelhante. Também na alegria.

O que poderia ter sido não será. O momento perdido não tem volta. Não tem história. Não foi.

Fica um gosto amargo na boca. A sensação de perda dói dentro do peito. Os olhos olham as mãos. Os fios estendidos em cima da rua. E as mãos se retraem, porque não tem mais sentido permanecerem abertas

Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). É provedor (presidente) da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.