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Os ipês do cemitério São Paulo

 

Faz muitos anos que, nesta época, eu escrevo sobre os ipês do Cemitério São Paulo. Regularmente, eles dão show ao se vestirem com suas flores roxas para enfeitar o campo santo no qual estão plantados.

Eles têm noção da importância dos mortos na história dos vivos e nos avanços da civilização. Não há civilização sem respeito aos antepassados, a história, ao que veio antes e no seu momento deu sua contribuição para a formação da argamassa sobre a qual é permanentemente erguida a estrutura social.

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Os ipês do Cemitério São Paulo explodem suas cores vivas para honrar os mortos enterrados à sua sombra. E eles fazem isso com a singeleza de quem sabe que as coisas são simples e que somos nós que as tornamos complicadas.

Para os ipês do Cemitério São Paulo, florir não é apenas competir com os outros ipês plantados nos outros cemitérios da cidade. Eles respeitam os ipês do Cemitério da Consolação, os ipês do Araçá, mas isso não é razão para não darem o melhor de si no momento de florirem.

Os ipês do Cemitério São Paulo são competitivos e não veem razão para não entrarem de cabeça na corrida pela florada mais bela. Eles não entendem quem diz que não é para dizer que quem venceu, venceu, para não intimidar quem perdeu.

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Eles querem ser os mais belos e, invariavelmente, conseguem. Mas isso não é de graça, não cai do céu. Há todo um processo de construção.

Mas este ano a florada dos ipês do Cemitério São Paulo tem mais uma razão de ser. Os milhares de mortos enterrados sem velório por causa da pandemia sensibilizaram os ipês. Eles sabem que é necessário, mas não se conformam com a falta do velório, da despedida, da promessa do encontro na outra vida. Para honrar estes mortos, só uma florada ainda mais bela.

Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). É provedor (presidente) da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.