O bazar Angélica fechou as portas
Ao mesmo tempo que o Brasil chegou nos cem mil mortos vítimas do coronavírus, eu descobri que o Bazar Angélica fechou as portas. É dessas baixas inacreditáveis. Ao longo de mais ou menos quarenta anos, o Bazar Angélica foi um marco no bairro, a certeza de que a vida segue suas rotinas e que, um dia depois do outro, cada um de nós traça seu caminho.
Não me lembro a primeira vez que fui ao Bazar Angélica, que eu não chamava de Bazar Angélica, mas onde eu comprava utilidades de todos os tipos, de chaveiros a canetas, de perfume a sabão de barba e presentes.
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Era dessas lojas pequenas, típicas dos bairros de São Paulo de trinta anos atrás, dando para a rua, com uma infinidade de artigos essenciais, que você não encontra em outro tipo de loja.
Os proprietários, com o tempo, ficaram meus amigos. Eu ia lá e perguntava por um produto. Se não tinha, eles encomendavam e me telefonavam quando chegava.
O Bazar Angélica ficava na Avenida Angélica, no prédio que faz esquina com a Avenida Higienópolis. Ficava meio escondido, atrás de uma grade alta. Seu vizinho era um bar que eu não sei se continua aberto ou se também fechou as portas.
É da natureza das coisas um belo dia tudo ter fim. Dizem que até o universo um dia vai acabar. Meu consolo é que isso deve acontecer depois que eu tiver partido, então não me preocupo, nem perco o sono pensando no fim do mundo.
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Mas o fim do Bazar Angélica me entristece, me faz pensar na finitude da vida e na imprevisibilidade do destino. Se uma loja não tinha razão para um dia acabar era ela. Discreta, pequena, sólida na sua tradição, o Bazar Angélica deveria estar lá, firme e forte, quando eu voltasse a frequentar a Cantina Roma. Só falta o Roma também não reabrir…
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