A certeza é o passado?
Alguém mais inteligente já falou que no Brasil até o passado é incerto. É uma afirmação corajosa, até porque aqueles que querem mudar o passado são poderosos e não gostam de ser desmascarados.
Coisas da vida, que no Brasil adquirem uma conotação de heresia, que pode terminar com o indigitado denunciado pelo Supremo Tribunal Federal, ainda que ele não tenha feito mais do que usar seu direito de livre expressão.
Em princípio, certo, mas certo mesmo, só o passado, o que já aconteceu. Só que o que já aconteceu pode ser visto de várias formas, então a narrativa de um pode ser diferente da narrativa de outro. E mais uma vez a vaca vai para o brejo, porque realmente, nem o passado é garantido.
A primeira vez que fui ao Paraguai não entendi ter uma estátua de Solano Lopez numa praça pública. E entendi menos ainda quando soube que lá ele é um grande herói, enquanto, aqui, ele é o ditador sangrento que deu origem a Guerra do Paraguai, o maior e mais mortal movimento militar da América do Sul.
Demorou um pouco para processar a descoberta. Afinal, sempre estudei que Solano Lopez foi um ditador horroroso que deu início e depois perdeu a Guerra do Paraguai, na qual, antes da vitória da Tríplice Aliança, morreram dezenas de milhares de pessoas.
Muita gente sonha com o futuro, mas o futuro não existe. Sendo futuro ele ainda não chegou, não é possível dizer se ele é bom ou não. Não tendo acontecido ele não é nada.
O passado deveria ser algo solidamente amarrado as experiências de quem o viveu. Deveria ser imutável, e na média, ele é. Acontece que aqui tentam fazer o passado acertar o passo para contar histórias que nunca aconteceram, pelo menos do jeito que querem contar.
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