A ressurreição da igreja
[Crônica de 6 de agosto de 2009]
A igreja de Nossa Senhora da Boa Morte estava condenada. Feito os personagens bíblicos portadores de doenças terminais ou repulsivas, a igreja minguava, lentamente, devorada pelo tempo e pelos cupins que lhe abriam chagas horrorosas nas paredes e nos telhados.
A passagem do tempo e o descaso humano estavam devorando o antigo templo. Ano a ano, por décadas, a igreja sentiu no corpo sólido, de taipa de pilão, os estragos que a levaram a ser interditada, com risco de desabamento.
Tanto fazia se a igreja da Boa Morte era parte importante do passado paulistano. Tanto fazia se chegou a substituir a Sé, no período em que a Catedral estava em construção.
Caía e ninguém se comovia. Ninguém se incomodava. Era apenas mais um templo, na longa história dos templos abandonados que se confunde com a própria história da cidade. Durante anos ela permaneceu fechada, com o futuro indefinido, vítima do desinteresse de quem quer que fosse pelo seu salvamento.
Mas os milagres acontecem na História Sagrada e na vida real. Alguém, algum dia, passou por lá, ou ouviu falar que a antiga igreja em louvor a Nossa Senhora da Boa Morte estava condenada. E se comoveu.
E se mexeu, tomando as primeiras providencias para a salvação do templo e a preservação de uma parte importante do passado da cidade. Agora, a igreja da Boa Morte renasce de suas ruínas. Sai da solidão dura da decadência e do abandono para voltar a ser parte da vida da cidade onde, durante os últimos séculos, teve papel importante.
Seja bem-vinda igreja humana e poética. Seja bem-vinda quem homenageia a passagem para outra vida, e facilita seus atalhos.
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